Catar Feijão
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
Análise do poema
Presumo que o poema “Catar Feijão” seja uma analogia que João Cabral
de Melo Neto faz ao processo da escrita. O ato de colocar o feijão na água se
assemelha ao ato de colocar as ideias no papel.
No caso de catar feijão, os grãos que boiam são os grãos impróprios
para o uso e os que permanecem no fundo da água são os grãos densos, saudáveis
e que servirão de alimento.
A folha de papel é considerada água congelada onde as palavras “boiam”
e o verbo como chumbo que afunda. Nesse caso, a voz do eu lírico faz uma
referência à estrutura e organização das palavras e das orações dentro de um texto.
A partir do verbo se analisa as demais propriedades do texto como, por exemplo,
a concordância verbal.
O cuidado ao catar feijão se dá quando se separa, de forma
cautelosa, os grãos sadios dos grãos podres, de algum cisco ou pedras. Quando
não se tira todas as pedras pode-se quebrar os dentes ao comer esse feijão.
Ao lançar as ideias no papel, as palavras de maior “peso” são as que
darão beleza e sentido ao escrito. Essa palavra como ícone na frase ao passo
que embeleza ela causa certo tropeço no sentido de moderar a velocidade da
leitura, pois desperta a atenção do leitor que é induzido até o fim do texto.
Michelangelo diz que para
fazer uma escultura ele apenas retira o excesso[1].
Umberto Eco defende que a matéria (o léxico) já possui o escrito; o que precisa
é investigar o que é útil para se usar no momento. Aqui Eco insinua, entendo
eu, que todo poema ou toda obra literária de forma geral já está pronta e o escritor
precisa, apenas, livrar das palavras excedentes.
Quando proponho a analisar essa “pedra no feijão” a partir de outra
perspectiva entendo, ainda, que João Cabral de Melo Neto quis fazer uma
referencia ao grande poeta Carlos Drummond de Andrade e a seu poema “No Meio do
Caminho” cuja pedra mencionada propiciou grande discussão para críticos
elevando, ainda mais, a popularidade do Itabirano.
Bibliografia:
ECO, Umberto. Pós Escrito a O Nome da Rosa. 2ª Ed.
Tradução de Letizia Zini Antunes e Álvaro Lorencini. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.
MELO NETO, João Cabral
de. “Catar Feijão” in Obra Completa, Rio de Janeiro, Ed Nova
Aguilar,1999.
[1] Como faço uma escultura? Simplesmente retiro do bloco de mármore
tudo que não é necessário. (Michelangelo).

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